sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Porque mais que uma vida é um sentimento…


Ela olha e repara em tamanha beleza; sente-se inferiorizada e fica perdida nos seus súbitos pensamentos. Àquela criatura? Falta-lhe respirar, falta-lhe conseguir ver, falta-lhe conseguir tocar, falta-lhe o pensamento, falta-lhe a memória.
Continua a olhar e a apreciar a maravilha que tem à sua frente. Falta-lhe recordar, falta-lhe conseguir a imposição mas não lhe falta fazer a diferença. A perfeição? Também não está em falta… O perfume? Está vincado. A cor? Mais viva do que qualquer outra coisa. Cada pormenor, cada detalhe, cada particularidade.
Repara que toda aquela beleza obscurece tudo o que a proíbe de ser uma pessoa. Desta feita, pensa na sua vida e repara que não é por conseguir respirar que respira o ar daquela pessoa… Repara que não é por ver que consegue encará-lo sempre que quer… Nota que não é por poder tocar que o atinge sempre que deseja… Mas, sem sombra de dúvida, a memória permite-lhe visualizá-lo sempre que fecha os olhos. Sim… Fecha os olhos para o ver, fecha os olhos para o sentir, fecha os olhos para sentir o seu cheiro, fecha os olhos para ouvir as suas doces palavras, para recordar as suas lindas histórias, para reviver aqueles minutos, para visualizar aquele sorriso, mais uma vez.
Abre os olhos e encara a realidade mas dá por si a fechá-los novamente e a não querer abri-los nunca mais. Obscurece a visão mas enriquece o pensamento, a recordação, a memória. Que mais importa?
Continua a apreciar a beleza daquela criatura… Não é por não recordar que não será recordada… Não é por não ver que não será vista… Não é por não falar que não será mencionada… Não é por não cheirar que não quererão sentir o seu perfume…
Porque mais que uma vida é um sentimento…
Ela nunca viveu sem sentir mas sim, já sentiu sem viver… Já imaginou sem sair do sítio, já idealizou estando parada, já viveu sem sair daquele metro quadrado, já reviveu sem o ver ou tocar.
Olha novamente para aquela flor… Também ela quer colorir a sua vida, da cor que tiver mais à mão…
“A tua beleza é superior a todas as flores que possas ver à tua volta…”
Cliché…

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Existência

“O que vês?” “Para além das árvores despidas? Do céu nublado? Da claridade obstruída? Das estradas molhadas? Do fumo a sair das chaminés? E das pessoas encasacadas?” “Sim, para além disso, para além da calçada escorregadia e escondida, para além das noites estreladas e frias, para além das noites nubladas e húmidas…” “Para além de tudo isso vejo o desconhecido, vejo o inatingível… Sinto falta da firmeza, da certeza, da sensação de que tudo correrá da melhor forma e com a melhor pessoa…” “Não consegues ver uma luz?” “Negra, é a única que vejo…” “Sabes, a imaginação influencia muito a visão…” “Sei disso tão bem… Para mim, todos os sentidos me influenciam… Sou, pura e simplesmente, dominada por eles. Só eles me levam até onde quiserem… Eu oiço aquela música, sinto aquele perfume, vejo aquela imagem e consigo saborear cada momento passado e tocar em cada parte dele…” “Tudo porque imaginas?” “Não... Tudo porque sinto… Tudo porque me rejo pelo «sentir tudo de todas as formas».” “E se te tentares abstrair de um dos sentido?” “Sentirei os outros em dobro! Se fechar os olhos enquanto estiver a ouvir aquela música, mais vincada será a recordação… Se fechar os olhos enquanto estiver a cheirar aquele perfume, mais marcante será aquela lembrança! Se…” “E se te abstraíres de todos eles?” “Se o fizesse deixaria de ser eu… Se o tentasse fazer perderia toda a minha essência…” “Mesmo que o não o fazeres te faça sofrer?” “Mesmo que sofrer seja tudo o que me resta! Se a minha sina é essa, então que o seja… Nada farei para mudar…” “Acreditas nisso?” “Acredito… Acredito no destino!” “Mas…” “Mas, neste momento, tudo o que quero é sentir!” “E o resto?” “Que resto? Eu resumo-me a sentidos! Não há excedente possível!” “Então, por favor, apercebe-te da minha existência! Ouve-me, vê-me, cheira-me, toca-me, saboreia-me…”

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Explosão de cores


A janela estava aberta, as portas estavam encostas, a sua mente estava fechada. O pensamento era mais confuso do que nunca, e nenhum pensamento introduzido servia para arrumar a confusão que se encontrava dentro da sua cabeça. Sentia um arrepio, um aperto forte, uma vontade desesperada de sair pela porta, rumo ao desconhecido. Nada a tranquilizava! Aquele sofá? Já não o podia ver! Aquela cama? Já não a podia imaginar! Aquele aroma? Já não o podia sentir! E o aconchego do lar? Já não lhe chegava… Queria sentir algo, queria fugir, queria ser de outra forma, mostrar-se forte, sentir-se outra, sendo a mesma… Dicotomia de sentimentos, de pensamentos, de emoções, era tudo o que tinha naquele momento.
Não sai, não foge, não se esconde. Ao invés disso, arreda a cortina e espreita para fora… Tenta olhar a linha do horizonte, mas tudo o que consegue é ver um nevoeiro, que a impede de visualizar a luz!
Tal e qual como se passava na cabeça dela, naquele momento! Ela queria ver, mas não podia! Onde estava o clarão de que tanto precisava? Onde estavam as respostas às suas questões? Onde estava a sua felicidade total?
O nevoeiro persiste, mas ela também o faz… Mantém-se a olhar para fora, na esperança de sentir algo de diferente! Na esperança de ver a luz, aquela luz por que tanto esperava e ansiava! O tempo passava mas a esperança não se perdia, a paciência permanecia, a dicotomia de sensações insistia ainda mais.
Uma gota, outra… Começa a chover… De repente, sente um movimento de um carro, a aproximação de alguém (alguém que decidiu fugir, sem saber bem o que fazer?). Ela abstrai-se e recai sobre os seus problemas.
Alguém bate à porta… Inevitavelmente teve de interromper o seu pensamento…
“Tinha de vir… Não aguentava a tua ausência por mais um minuto!” (Ou alguém que sabia muito bem o que procurava…)
“Já te disse que te adoro?”
E um arco-íris surgiu, inevitável e espontaneamente… Uma explosão de cores!


sábado, 29 de outubro de 2011

Porque ele é capaz de tudo…

O que ele é capaz de fazer a qualquer ser que respira, que vive, que sente, que imagina, que idealiza…
Sim, ela acordou de um sono profundo… Abriu os olhos e sentiu-se como há já muito tempo não se sentia. Imaginava cada momento, cada sensação tida, cada instante em que perdeu o fôlego, em que perdeu a capacidade de pensar, a capacidade de reagir, a capacidade de negar… Cada pedaço de tempo em que o seu coração palpitava, em que o seu coração batia forte e cada vez mais forte… Recordava cada gesto, cada sorriso, cada olhar, cada toque, cada expressão, cada movimento. Era como se estivesse a reviver aquela circunstância, naquele preciso momento, naquele preciso local.
Ele é mesmo capaz de tudo… Abalar, fazer chocar, fazer chorar, fazer reflectir, fazer rir, fazer falar, fazer ser, fazer sentir… E, por isso, ela estava a imaginar tudo o que tinha acontecido, fosse da forma que fosse…
Ele também é capaz de fazer acreditar, de motivar, de trazer a felicidade de volta…
O tempo passa, ela sai de casa e sente um friozinho no rosto. No entanto, nem ele é capaz de arrefecer o que ela sente, depois de o ter tido. Um carro passa e a água contida na estrada, pelo mau tempo que se fazia, atinge-lhe o corpo. Mas não, nem isso esfriou o pensamento que trazia na sua mente.
Ele tem mesmo um poder fundamental e extraordinário… E é por isso que ela se sente tão bem, nem que seja apenas por breves instantes. Mas, até aquele pensamento persistir, ela vai ser feliz e vai olhar para a vida a sorrir.
O telemóvel toca e a esperança instala-se, ela pára no local em que se encontra, o coração bate mais forte, o sorriso surge natural e espontaneamente, o fôlego cessa e o movimento de atender a chamada aparece sem que ela se aperceba. “O que queres?”, “Apenas uma segunda oportunidade… Acredita que é a única que preciso para te fazer feliz”.
O que ele é capaz de fazer a qualquer ser que respira, que vive, que sente, que imagina… Que sonha!
“Espero que a aproveites bem… Às 22 horas, em minha casa.”, “Lá estarei…”
Porque o sonho é capaz de tudo… E sim pode realizar-se… A qualquer momento, a qualquer minuto, a qualquer segundo…


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Caminhos cruzados

“Dizes algo quando chegares?”, “Sim, claro! Mal chegue ligo-te!”.
Ela entrou no comboio para mais uma semana, pronta para mais desafios, pronta para continuar a sua vida. Cansada, vestindo leggins e uma t-shirt comprida, calçando umas sandálias confortáveis, apresentando-se com o cabelo solto e húmido e fazendo-se acompanhar pela sua mala, senta-se no primeiro lugar que avista.
“Posso sentar-me aqui?”, ”Claro que sim!”.
O comboio parte e a sua mão faz aquele movimento inevitável de quando nos separamos de alguém…
Montes, casas, caminhos… O sol a pôr-se, as saudades a apertarem, o pensamento activo, o desconhecimento a provocar agitação. A passagem do tempo deixa marcas, lacunas, nódoas, apesar de as tornar pouco visíveis... Afinal, nem tudo é negativo!  
Observa-o e sente algo estranho. Era bonito, alto e tinha um ar muito simpático. Subitamente, repara que ambos estão posicionados da mesma forma: pernas esticadas, braços cruzados, cabeça para trás, telemóvel pousado na perna direita… Ambos relaxados, ambos a observar a paisagem deixada para trás, ambos melancólicos, ambos pensativos…
Ele observa-a disfarçadamente. Sente que ela é diferente e tenta dizer qualquer coisa. Porém, o máximo que consegue fazer é manifestar uma tosse seca e forçada!
A esta altura passam imensas imagens pela cabeça dela… Uma espécie de resumo da sua vida, do tempo que desperdiçou, dos medos que encarou, das situações que enfrentou, do rosto daquelas pessoas que a marcaram, dos momentos inesquecíveis, das promessas incumpridas, das surpresas com que se deparou…
Sem que se apercebessem da passagem do tempo, ele chega ao destino. Retira um papel e uma caneta do saco que tem consigo, escreve algo, dobra o papel, levanta-se do banco, entrega o papel a ela e, sorrindo, sussurra: “Vê apenas quando não me avistares!”
O comboio entra em movimento. Sente nervosismo, sente uma mistura de sentimentos. Cumprido o desejo dele de apenas desembrulhar aquele papel quando não o avistasse, sorri quando vê um número de telemóvel e quando termina de ler o que ele escreveu.
“«Dizes algo quando chegares?» Agora, só me resta que respondas silenciosamente a esta minha questão da mesma forma que respondeste a quem te acompanhou à estação…”
Destino? Caminhos cruzados…


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Sei tudo isso a que te referes…

“Sabes quando queres seguir aquele percurso mas, sem te aperceberes e rapidamente, escolhes aquele que é o aposto ao que tu queres? Sabes quando tu queres dizer sim, e dizes não? Sabes quando queres sair por aquela porta mas acabas por entrar por ela? Sabes quando queres respirar e parece que te falta um básico balão de oxigénio? E sabes qual a sensação de quereres acender uma luz mas acabares por apagar todas as luzinhas que te rodeiam? Sabes o que é quereres comer e acabares por pegar numa garrafa de água? E sabes o que é amar e dizer que odeias? Sabes o que é apontar para o céu desejando o inferno? Sabes o que é olhar uma paisagem magnífica e parecer que estás a olhar para o abismo? Sabes o que é quereres libertar-te e continuares presa? Sabes…”
“Sei…! Sei o que é querer acordar e, apesar desse desejo, continuar com aquele pesadelo. Sei o que é querer caminhar e não conseguir levantar-me. Sei o que é querer falar e faltarem-me as palavras. Sei o que é querer olhar e acabar por desviar os olhos para o lado oposto. Sei o que é querer chorar e sorrir. Sei o que é querer desabafar e, apesar disso, deixar tudo para de mim. Sei o que é desejar a felicidade e não a ter. Sei o que é querer ver o dia e apenas embater com a noite. Sei o que é pensar em tudo e, simultaneamente, não pensar em nada. Sei…”
“Sabes mais do que aquilo que eu pensava que soubesses… Mas certamente não saberás o que é quereres beijar alguém e não poderes. Seguramente não saberás o que é desejar alguém e não poderes ter essa pessoa. Evidentemente não saberás o que é não conseguir adormecer. Decididamente não saberás o que é sofrer por amor…”
“Sei tudo isso a que te referes… E sabes porquê? Porque sei o que é querer beijar-te e não poder. Porque sei o que é desejar-te e não te poder ter. Porque sei o que é não adormecer por te ter no pensamento. Porque sei o que é sofrer por ti…”



sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Era uma vez...

Era uma vez uma estrada, uma única estrada. Ela percorria-a sem qualquer dúvida, sem qualquer receio, sem qualquer desconfiança… Afinal, apenas tinha aquela opção. Percorria-a naturalmente, a uma velocidade constante. Afinal, aquela estrada não a iria surpreender, porque era apenas uma, era única, inofensiva! Nenhum obstáculo, nenhuma lacuna pelo meio, nenhuma perturbação pela berma, ninguém a mandá-la parar ou a mostrar-lhe outro caminho (afinal, a esta altura, não havia outra opção).
Monótono? Fácil de mais? Aborrecido? Maçador?
Era uma vez uma estrada, uma única estrada. Ela caminhava tranquilamente. A certa altura, espontânea e momentaneamente, surge algo que ela desconhece. Admirada e assustada, fica sem saber como reagir, como actuar perante aquela situação!
Parecia que tudo decorria sem problemas, sem sombra para preocupação, quando, de repente e sem explicação imediata, ela é surpreendida!
Uma bifurcação. De uma bifurcação, é do que se trata. A vida dela deixa de ser linear, contínua, sem escolha!
Tinha chegado a altura de ela optar! E tinha de ser naquele momento. Afinal, depois de passada essa ramificação, não poderia voltar atrás… Seria irreversível.
Lamentável? Preocupante? Injusto? Inquietante?
Era uma vez uma estrada, com uma bifurcação. Ela teve de optar…. E acabou por escolher um dos caminhos.
Era uma vez um desvio. E ela teve de fazer esse desvio…
A vida é mesmo assim… Umas vezes porque não temos opção, pois apenas temos uma estrada pela frente, outras vezes porque temos de escolher, pois existem várias opções, e ainda outras em que, impreterivelmente, se tem de optar por algo que, mesmo que não pareça o melhor, é o que tem de ser feito.
Afinal, apesar de não haver uma explicação imediata para o aparecimento daquele obstáculo, daquela novidade, daquela bifurcação, a explicação existe! Ela optou… Ela percorreu o caminho que escolheu… Perante essa escolha, acarretou com o desvio.
Destino? Propósito? Sina?
Seja o que for… Se é um objectivo? Não se sabe… Se é o caminho para a felicidade? Ainda se virá a saber…
Era uma vez uma vida, uma escolha, vários caminhos, mas um só final…