sábado, 14 de maio de 2011

Visões

Ela olhava pela janela como se o mundo tivesse surgido naquele momento… Encantada com meros montes, meras árvores, meras ventoinhas… Elas moviam-se ao ritmo daquela música; moviam-se como ela se tentara mover dos locais com demasiada entropia para os calmos e serenos.
O sol brilhava (apesar dos ponteiros do relógio já demonstrarem 19:40 horas) e a sua imaginação saltava de terreno em terreno, de ramo em ramo, de pedra em pedra. Nada mais interessava naquele momento; tudo se tornara, súbita e rapidamente, acessório e desmotivante. O sol brilhava mas a lua não estava presente… Escondera-se durante umas horas e era o que ela queria fazer, precisamente, naquele momento. Dava por si a pensar no quão importante e bom seria para ela parar no tempo, já que retroceder se tornara ainda mais impossível (na verdade, a impossibilidade é exactamente a mesma!).
O telemóvel toca e desperta-a para o mundo… Desperta-a e, por momentos, vários pensamentos surgem; pega nele, observa o que diz no visor… “Pai a chamar”.
“Onde estás? Ainda demoras muito, querida?”, “Não paizinho, não te preocupes, às 20 horas já lá devo estar…”, “Então daqui a pouco saio para te ir buscar.”, “Está bem… até já! Beijinho.”
A chamada já tinha sido interrompida e ela fica a olhar para o visor apagado – tal como ela se estava a sentir… Permanece imóvel como se nada importasse. Volta aos seus breves pensamentos que a mantêm viva, erguida, desperta.
O sol continua a brilhar, mas cada vez mais se nota a diminuição do contraste…
Ela continua a desejar parar no tempo, na vida, nos pensamentos que a atormentam. Como queria voltar atrás e impedir que muita coisa acontecesse…
Mas a vida é mesmo assim, não é? Já Saramago afirmava: "Se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar.”
Crescer, florescer, aprender, lidar… Chorar, sorrir… Cair mas levantar…
Porque a visão de hoje pode não ser a mesma da de amanhã…



segunda-feira, 9 de maio de 2011

Dicotomia, unicidade, pluralidade…

Ela abre a janela como que obrigada a isso… Ela sente que o ar daquele quarto não chega para tudo aquilo que ela necessita de insuflar… Olha o céu e tudo lhe parece único, ideal, novo, inédito! Nada mais existe para ela, naquele preciso momento… A lua não é vista, mas a imensidão do seu poder é sentida por ela. Ela sente-se tal como a lua, pois apesar de acompanhada pelas estrelas necessita da companhia da sua grandiosa fonte de alegria, de luz, de calor.
Fecha a janela… Faz vento lá fora! Tudo o que vê surgira naquele momento, tudo o que sente surgira naquele instante, tudo o que pensou fora original, extravagante, singelo, despretensioso… Um mundo lá fora, um mundo dentro, um mundo dentro de si e, simultaneamente, um buraco negro.
“Como estás, pequenina?”, “Queria muito dizer-te que estou bem, que sou forte, que supero tudo, mas tal não acontece….”
Tudo o que sente é dicotomia de sentimentos, sensações, sentidos… Unicidade de silêncio, escuridão, olhar… Pluralidade de desejos, forças, lágrimas…
“Que se passa contigo? Porquê que estás assim? O que te atormenta?”, “O facto de não andar atormentada até agora, o facto de o desejo se ter tornado em posse, o facto de ter de angariar aquela força…”, “Mas já o tiveste de fazer antes… A vida é mesmo assim…”, “Pois é, o que não me faz sentir melhor…”, “Mas sabes que estarei aqui para tudo?”, “Sei que estás sempre para tudo… Não seria excepção…”
Apaga a luz, sente a escuridão profunda, sente aquele som permanente, aquele murmúrio…
Resta-lhe a imaginação, o sentimento, a mente… Dicotomia, unicidade, pluralidade…


domingo, 10 de abril de 2011

“Quero que sejas o tal…”

“Encontramo-nos lá?” “Claro que sim… Vai à vontade!” “Sabes que te adoro?” “Sei o quanto gosto de ti, e se gostares assim de mim, então, de facto, não me estás a mentir.”
            Quando menos ela esperava, ele surgir espontânea e irreversivelmente na sua vida; Quando ela pensava não voltar a sentir o que chamava de arrepio, este surgiu de forma abismal e profunda. Ele fez com que tudo valesse a pena na vida dela, fez com que as suas escolhas tivessem, naquele momento, todo o significado e mais algum; humedeceu toda a forma de pensar dela e rejuvenesceu qualquer ruga que existisse no seu estado de espírito.
            Chamam-lhe tanta coisa mas ela prefere referir-se a isso como o melhor que lhe aconteceu; sente-se segura das acções e, para além disso, cada gesto é a imensidão.
            O olhar cruza-se a cada instante, os lábios tocam-se a cada momento, as emoções sobressaem a cada gesto e ela sente que tudo vale a pena. Cada toque, cada expressão, cada sorriso…
            “Sabes o quanto detesto que desconfies de mim…” “Apenas não te quero perder… Apenas quero que sejas o tal… E confio, confio em ti…”
            Ela quer chamar a todo este enredo de algo, quer nomear esta felicidade, quer designá-la de algo… Mas como? Em quê que se tornou aquele rapaz para ela? Muita coisa  simultaneamente, mas deve haver algo de muito forte que sobressaia de toda esta magia! Felicidade? Alegria? Ânimo?
            Talvez seja convicção! Convicção de que é ele! Convicção de que agora tudo valerá a pena…
            “Ai Amor, que seria de ti sem mim? Se não fosse eu…” “Pronto minha linda, realmente és a minha salvação nuns momentos e a perdição noutros…”
            Ela quer continuar a ser exactamente assim; Ela quer ser tudo de todas as formas e feitios; Ela fará de tudo para continuar a ser salvação e perdição… E, assim, certamente, atingirá o clímax da felicidade… Assim, perderá a respiração em todos os instantes em que ele estiver por perto… Assim, ela será feliz… 
            Ela está sequiosa para o fazer sentir tudo o que ele deseja… E a ansiedade traz tudo! Ela nunca se vai esquecer que desejar algo com muita força faz com que isso se realize, efectivamente… E, graças a isso, ela é feliz…  
            “Vamo-nos dar lindamente, estou mesmo a ver…”

 

terça-feira, 15 de março de 2011

“Ligo-te quando chegar!”


“Anda! Olha que já se faz tarde!”; “Não te preocupes! Ainda vou a tempo! Tanta pressa!”.
“Querida, tens tudo?”; “Sim! Já tenho tudo direitinho…”.
          A vida é feita de regras, de objectivos, de sentimentos que despertam no ser humano uma sensação de insatisfação nos momentos em que não se consegue concretizar o que se tem em mente. É por isso que ela se sente feliz… Apesar do cansaço, da quantidade de trabalho que tem, das dificuldades amorosas por que passa, ela sente-se concretizada, porque faz tudo o que está ao seu alcance para atingir o sucesso!
          “Já vamos tarde… Se perderes o autocarro não sei como vai ser!”; “Já disse que ainda chegamos a tempo! Mas bem que podia levar o carro esta semana…”; “Tem juízo filha! Assim é mais seguro… E fico tão mais sossegada…”
          Ela é um modelo de pessoa… Pensa sempre nos que a amam em primeiro lugar; Muitas vezes dá-se por ela sentada, à beira do mar, a pensar no quão importante é a sua família… Os seus pais são os pilares, são os sustentáculos… Os exemplos! Descobriu há pouco que o seu futuro noivo está apaixonado por uma outra moça e, mesmo assim, supera a dor, a angústia; Tenta olhar para a vida com um sorriso, tenta ver os pontos positivos da situação (que é, de todo, constrangedora). Está a ultrapassar este obstáculo, depois de tantos que teve de transpor. Mas ela é forte! Ela supera tudo (pelo menos, é o que sempre toda a gente diz; pelo menos, é aquilo em que queremos acreditar…)!
          A sua vida profissional está estável (é o que a faz ficar com a auto-estima mais elevada); desejara esta estabilidade há muito e, finalmente, tinha chegado a sua altura … Afinal, quem espera sempre alcança, dizem por aí…
            “Pronto, viste como chegamos a tempo? Mas… Tanta gente! Quererão todas estas pessoas ir para Lisboa?”
            Ela fez o que sempre fazia quando chegava à garagem dos autocarros: fila, compra do bilhete, nova fila para a entrada do autocarro… Àquela hora partiam sempre dois, uma vez que o número de pessoas a realizar aquela viagem era significativo… Ela foi a última pessoa a entrar no primeiro autocarro! “Que sorte, filha! É que a mala já estava neste autocarro!”; “Ligo-te quando chegar! Já disse que vos adoro?”
A vida consegue ser tão boa e tão má… Tão mágica e tão nefasta… Tão concreta e tão abstracta…
            “Estou?”; Fez-se um silêncio… Seguiu-se um processo de assimilação do acontecimento… Este silêncio deu origem a um sentimento que apertava o peito daquela mãe…
            “Sinto muito… Mas o primeiro autocarro sofreu um acidente… Sinto muito pela sua filha…”
            “Pó, cinza e nada…”
            

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Aquele encanto...

Foi naquele momento que o olhar de ambos se cruzou… Foi nesse mesmo instante que o coração dela saltou do peito. Ele ficou incrédulo, sem saber como reagir, sem saber o que pensar, sem saber como respirar, sem saber como estar em pé, sem saber o que deveria saber… Um olhar com mais poder que uma palavra, que mil palavras, que duas mil palavras, que uma legião; Um olhar profundo, arrepiante, singelo, puro, real mas simultaneamente misterioso e fantasioso…
A magia envolveu aqueles dois segundos; o tempo parou e tudo o resto deixou de existir… Momentânea e rapidamente todas as pessoas desapareceram… Todas as pessoas que os rodeavam deixaram de estar presentes, de ser importantes, de terem peso sobre eles, de interessar. Só eles, só eles importavam… Aquele rápido momento tinha sido crucial, tinha sido tudo o que cada um esperava que acontecesse…
Só eles…
Aquele olhar… Aquela expressão de ambos tinha consumido cada reacção, cada possível reacção, cada reacção provável.
Por que damos constantemente importância a factores sem interesse? Por que esperamos por aquela reacção? Por que esperamos por aquele momento para agir? Tanta coisa espontânea e involuntária… Tanta fantasia… Por que procurar a realidade quando podemos viver um sonho? Por que sofrer quando podemos ser mais felizes que nunca? Por que suplicar, quando a súplica rebaixa, faz sofrer, faz pensar (de mais), faz viver de forma nefasta?
Só eles…
Eu quero viver mas, antes disso, quero sonhar e fantasiar, ser eu própria, ser assim… Ser dessa forma… Ser…
Aproximaram-se sem dar importância ao que os rodeava – para eles nada mais existia naquele momento. Foi nesse instante que ele afastou a madeixa dela para trás da sua orelha e a olhou mais uma vez nos olhos (mais profundamente ainda)…
Só eles… Apenas eles importavam…
“Por que estás a reagir assim comigo?”
“A tua doçura encanta-me…”
“Não me conheces o suficiente para o dizer…”
Posso não conhecer a totalidade da doçura, mas conheço o suficiente para ser bastante.”
Um sonho ou uma realidade? Um conjunto de emoções, um livro repleto de cores vivas, de palavras entusiasmantes, de emoções… Se é uma coisa ou outra não tem importância… Para mim, não tem importância!
Aquele encanto…